quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Contradições Humanas

A gente diz que não vai mais fazer, e faz. A gente diz que não vai mais cobrar, e cobra. A gente diz que não vai mais sofrer, e sofre. A gente diz que não mais chorar, e chora. A gente diz isso e aquilo, qualquer bobagem reconfortante para tentar suportar com um pouco mais de leveza o peso da vida, mas nossa teoria frágil dificilmente se sustenta na prática. Porque somos humanos. E nossa consciência disso é uma espécie de fraqueza, mas também de força. Essa é a beleza da nossa condição. A racionalidade nos proporciona ferramentas para lidar com os problemas que a própria racionalidade cria no cotidiano. Ela nos dá a falsa ilusão de controle em meio ao caos das emoções. Ela nos faz enxergar que a vida é uma sinopse com spoiler: todos morrem no final. Ela nos ajuda a lidar com o absurdo disso tudo. Ela nos capacita perceber a beleza das contradições humanas. Afinal, a gente diz que não aguenta mais, e aguenta. E aguenta sempre.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Trampolim


À margem do trampolim, ou você pula ou desiste de vez. Não dá para rodear a piscina, molhar o pé na água para checar a temperatura, se pendurar na escadinha e não passar do primeiro degrau. A dor do impacto na água é seguida pelo prazer da refrescância. A dor da frustração não tem consolo. É calor nas faces que só a lágrima alivia – em parte: a lágrima morna do meio termo não vale as gotas de alegria que escorrem pela pele molhada, sedenta de vivências. Então, ou você pula de vez ou libera o trampolim.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Convite

Vamos parar de protelar a felicidade. De atrelá-la a uma pessoa, a um momento, a uma circunstância qualquer. “Se”, “quando”, “um dia”, “quem sabe”, “talvez”, “depois”. A felicidade não é dependente, ela tem o espírito livre que nasce no interior do sujeito e se projeta para fora. Ela acontece no aqui e agora, na rotina banal, nos pequenos prazeres. Felicidade não é fuga, é realidade. Não é exceção, é regra. Vamos parar de protelar a felicidade que já vive em nós, desenterrá-la, libertá-la dessa prisão chamada medo. Vamos?

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Às vezes


Às vezes o silêncio grita. E o grito silencia. Às vezes a sanidade enlouquece. E a loucura cura. Às vezes o amor odeia. E o ódio é apaixonado. Às vezes o infinito acaba. E o efêmero permanece. Às vezes a companhia cansa. E a solidão é a melhor companheira. Às vezes... Só às vezes. O mundo parece virar do avesso. E tudo se encaixa.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Tristeza


A gente não sabe lidar com a tristeza. Ela é sempre aquele sentimento mal visto, mal amado, que precisa ser combatido a todo custo. Não fica assim. Não chora. É bobagem. Esquece. Você merece ser feliz. A tristeza é uma visita inoportuna, que chega na hora errada, sem avisar; é espaçosa, faz perder tempo, e parece não levar a nada. Ela nos lembra dos nossos fracassos, dos nossos limites, das impossibilidades da vida. Remove a casca da ferida, que volta a sangrar. Retira o véu do bem estar social, arranca a máscara do bom humor e mostra nossa verdadeira face, nosso retrato de Dorian Gray, o espelho (sur)realista tão difícil de encarar. A tristeza nos faz mergulhar nas profundezas da nossa subjetividade, e os artefatos que encontramos nesse oceano nos horrorizam. Ela é mais autêntica que a alegria, pasteurizada, generalizada. A tristeza individualiza. Cada um é triste a seu modo. Cada um reage a seu modo. Silenciar a dor ou vivificá-la por meio de queixas, todos os meios de expressão são paliativos. Porque ela não vai embora assim. A tristeza é nosso calcanhar de Aquiles. É a pedra de Sísifo que precisamos carregar montanha acima, seguida e indefinidamente. É a águia devorando nosso fígado de Prometeu, numa tortura lenta e gradual.

A gente não sabe lidar com a tristeza porque ela nos paralisa, sufoca, mata. A tristeza nos desestabiliza. Mas ela não é má. Ela é necessária. É bronca de mãe, para o nosso bem. É tempestade, que lava e leva tudo. É a devastação antes da reconstrução. É o choro que precede o suspiro aliviado. A tristeza purifica e renova.

A gente não sabe lidar com a tristeza. Mas precisa aprender. Para poder saber apreciar a alegria. Para que o nosso sorriso surja puro, descontaminado de dor.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Silêncio


Um dia a gente aprende a respeitar o silêncio – a permitir que ele fale por si só, sem preenchê-lo com palavras vazias e superinterpretações. Um dia a gente aprende a respeitar o silêncio – nosso, alheio, geral; a entendê-lo naturalmente, até amenizar o vão aberto. Um dia a gente aprende a respeitar o silêncio – e deixá-lo pairar no ar, leve, absoluto, sem desespero. Um dia a gente aprende a respeitar o silêncio. Um dia a gente aprende a respeitar. Um dia a gente aprende. Um dia. Um...

domingo, 13 de novembro de 2016

Bastidores


A gente espera grandes demonstrações de afeto, cartas melosas, beijos lascivos, propostas irrecusáveis, até perceber que o amor se esconde nos detalhes. É aquele olhar de soslaio, uma mensagem singela ou a surpresa boba que nos conquista. O amor não se expõe nos grandes palcos: ele repousa nos bastidores. É íntimo, secreto, sujeito à interpretação de quem o vivencia.