quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Noite e dia

E, do dia para a noite, tudo muda. O riso vira lágrima. O amor vira mágoa. O que era próximo se afasta e o distante não volta mais. Mas a tristeza é bonita e a alegria é irônica. A gente se agarra às ilusões na esperança de salvar alguma coisa, só que nada fica. Tudo se esvai.

E, da noite para o dia, tudo muda. A lágrima vira riso. A indiferença vira amor. O que era distante se aproxima e não se afasta mais. Da noite para o dia, do dia para a noite, da noite para o dia, tudo corre, tudo vibra, tudo passa e se repete. A gente se agarra às ilusões na esperança de ganhar alguma coisa, só que nada fica. Tudo se perde. Mas a alegria é bonita e a tristeza é irônica. Ninguém morre. Vira lembrança. A vida continua depois, como antes, diferente, nova, com ou sem porquê, contudo, apesar de tudo. O tempo passa e nos ultrapassa. Dia e noite, noite e dia, dia e noite, noite e dia, dia e noite... Todo dia (re)começo, toda noite (re)fina.

sábado, 6 de maio de 2017

A era da tecnologia nos deixa dependentes das ferramentas. Cabe nos perguntarmos o que somos nós sem celular, computador, tablet, mesmo sem papel, caneta, qualquer suporte? O que sabemos sem consultar no Google? Que amigos guardamos na memória em vez de na agenda? O que retemos do que lemos, escrevemos, vivemos, sem fotos, sem notas, sem nada além da vontade de estar ali? O que somos nós sem o excesso de material disponível, sem a ilusão de segurança das informações prontas e rápidas, sem acesso a nada além da própria capacidade de raciocínio? O que somos nós sem armas, seres compostos de lembranças e esquecimentos, autênticos, imperfeitos, limitados? O que somos nós por nós mesmos, sujeitos sem objeto lidando com outros sujeitos? O que realizamos independentemente? Porque talvez esteja aí nossa verdadeira essência, sem carapaça. É quando lidamos com esse estado de fragilidade que entramos em contato com o melhor em nós. É quando nos libertamos dos recursos disponíveis e nos colocamos à disposição que descobrimos nossa humanidade latente. É quando nos expomos, sem medo, sem culpa e sem pudor. O que somos não sabemos, mas somos apenas, existimos. E o resto é acessório.

sábado, 29 de abril de 2017

Medo da solidão

Tememos a solidão porque não conseguimos lidar com nossos próprios fantasmas. Os outros nos ajudam a espantá-los. Eles nos fazem esquecer. Mas, no fundo, estamos sempre sós com nossos pensamentos. Os outros não passam de ruído. São a trilha sonora do nosso filme em preto e branco. O roteiro, porém, é nosso. Com medo da protagonização, tendemos a atuar como coadjuvantes da própria história. É mais seguro terceirizar as responsabilidades. Então, evitamos a solidão porque não conseguimos lidar com nossos próprios fantasmas, que criamos porque não conseguimos lidar com nós mesmos, em estado puro. No fundo, nunca estamos sós. Não nos permitimos ficar sós. Criamos ilusões para preencher a solidão que nos ronda. Palavras. Imagens. Sons. Vozes. Melodias. Enfeitamos a solidão de viver e, no fim das contas, ela nem parece tão ruim. Para que temer?

domingo, 2 de abril de 2017

Escolha

Vida adulta é escolha. O tempo todo. Das mais fáceis às mais difíceis. Quente ou frio, carne ou massa, calça ou bermuda, humanas ou exatas, namoro ou amizade, família ou carreira, dormir ou produzir, continuar ou desistir, para lá ou para cá. Escolha. Porque não tem mais ninguém para escolher por você. Porque não tem mais ninguém para assumir as consequências por você. Vida adulta é escolha. E solidão. Porque os outros estão muito ocupados fazendo suas próprias escolhas. Então escolha, aqui, agora, sozinho, rápido. Escolha. E, se você se arrepender, escolha de novo. E, se tudo der certo, escolha de novo. E de novo. E de novo. Até não restar mais escolha. Até a vida te impor o fim. A não ser que você escolha antecipar. A não ser que você escolha pagar para ver. Escolha. Escolha. Escolha.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Estar lá

Às vezes você só precisa estar lá. Ser o ombro amigo, o olhar atento, o abraço confortador. Fazer um esforço, suspender por alguns momentos a dureza da vida e ser o ponto de apoio de alguém. Às vezes você só precisa estar lá – sem se gabar ou pedir nada em troca. Porque você quer. Porque você se sente bem assim. Estar lá e deixar que o silêncio fale por ambos. Espalhar afeto em vez de depositar mágoa no ombro alheio. Estar lá – de corpo e alma, razão e emoção, cara e coragem. Você sabe. O outro sabe. Vocês sabem que estar lá é o que basta.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Contradições Humanas

A gente diz que não vai mais fazer, e faz. A gente diz que não vai mais cobrar, e cobra. A gente diz que não vai mais sofrer, e sofre. A gente diz que não mais chorar, e chora. A gente diz isso e aquilo, qualquer bobagem reconfortante para tentar suportar com um pouco mais de leveza o peso da vida, mas nossa teoria frágil dificilmente se sustenta na prática. Porque somos humanos. E nossa consciência disso é uma espécie de fraqueza, mas também de força. Essa é a beleza da nossa condição. A racionalidade nos proporciona ferramentas para lidar com os problemas que a própria racionalidade cria no cotidiano. Ela nos dá a falsa ilusão de controle em meio ao caos das emoções. Ela nos faz enxergar que a vida é uma sinopse com spoiler: todos morrem no final. Ela nos ajuda a lidar com o absurdo disso tudo. Ela nos capacita perceber a beleza das contradições humanas. Afinal, a gente diz que não aguenta mais, e aguenta. E aguenta sempre.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Trampolim


À margem do trampolim, ou você pula ou desiste de vez. Não dá para rodear a piscina, molhar o pé na água para checar a temperatura, se pendurar na escadinha e não passar do primeiro degrau. A dor do impacto na água é seguida pelo prazer da refrescância. A dor da frustração não tem consolo. É calor nas faces que só a lágrima alivia – em parte: a lágrima morna do meio termo não vale as gotas de alegria que escorrem pela pele molhada, sedenta de vivências. Então, ou você pula de vez ou libera o trampolim.